• renatoleal3

O dia de domingo...



O José acordou encasquetado. Era Domingo. Um sentimento amargo na boca, Uma má disposição presente. Uma inquietação seguida de tédio. Um misto de vontade de estar a sós e já querer qualquer companhia que aparecesse à sua frente. E isto já vinha do Sábado. Era assim toda a semana.

Como estava frio, vestiu um sobretudo, pegou no bastão e, na sua pisada chegou ao café.

---Que cara é essa? já foi indagando o Gaudêncio, com o seu ar risonho e com a disposição de sempre.

----Tu gostas do Domingo, oh pá? Indagou o José de forma meio rabugenta.

----Para mim é um dia de Rei. Ou estou com meus amigos - bem escolhidos, diga-se de passagem - ou com a minha mulher. Às vezes, vêm os filhos, o que alegra ainda mais o dia. E quando isto não acontece, me “afogo” numa cadeira de balanço, no silêncio e na paz.

Tomo uma cerveja nos dias quentes, ou um vinho tinto corrente, quando a temperatura cai. Mas para os dias quentes ando experimentando um vinho branco frutado, mas seco, bem fresquinho. Temos que buscar alternativas.

Sabe aquele livro, que andava lendo, e está encostado na mesa de cabeceira? É hora de pegá-lo. Ponho uma música, ou simplesmente sorvo um charuto, e fico comigo a conversar. Conversa de boca calada, friso bem, pois este encontro comigo, não divido com ninguém. E depois José, amanhã é 2 ª feira e tenho que trabalhar. O Domingo anuncia a chegada de mais uma semana laboriosa.

Confrontado com esta resposta sincera, objetiva e bem diferente do que sentia e fazia, o José, mal deixando Gaudêncio finalizar, foi logo atirando.

---Você tem uma sorte dos diabos. Meus amigos têm uma conversa que pouco me diz. A minha mulher no Domingo – justo no Domingo – resolve fazer-me companhia. Fica no pé do meu ouvido, naquele tititi, que não termina mais. Os filhos só aparecem para pedir alguma coisa. Eles chegam munidos dos seus telemóveis e tabletes e não param de trocar mensagens escritas e de voz. Eles parecem que estão aqui, mas não. Estão longe.

No que o Gaudêncio foi logo a remendar: --- E por que você não faz como eu, quando ninguém aparece e não me apetece sair? Fique com você. Aproveite a sua companhia. Aliás, normalmente são assim os meus Domingo. Se incomodam tanto a você, deixe-os e fique a sós com você.

--- Sou muito diferente de você Gaudêncio. Não gosto da calma e da paz. O silêncio me perturba, pois me traz de bandeja tudo o que se passa na cabeça. Dúvidas, inquietações. Preciso do meu trabalho, pois paro de pensar no resto. Logo que saio dele, tomo a minha lapada no burburinho do bar. Estes ruídos me acalmam. Ruídos do trabalho, do café ou do bar. Eles não me deixam pensar em mim. E não preciso estar com ninguém. Aí fico bem.

O Gaudêncio parou, e com um sorriso no rosto e uma certa ironia, levou o seu pensamento ao Domingo, tão injustamente rotulado por muitos. Na verdade, esses do Domingo mal falado não gostam da vida que levam, com quem levam e, principalmente de si. Esta é a razão do porquê de tantos o injuriarem. Os restantes, é pelo prenuncio da 2ª feira, quando se volta ao trabalho que não se gosta, mas que tem que se engolir.

É o Domingo que é ruim, ou a vida que estamos a levar? Julgo que todos aqueles que não gostam do domingo e da 2ª feira, deveriam se perguntar o porquê.

Gaudêncio calmamente ergueu-se, falsamente apoiado no bastão, pegou o seu casaco, deu um abraço no amigo José e exclamou: vou a procura do meu silêncio. Um feliz dia de Domingo para você.

E lembre-se que domingo prenuncia a 2ª feira de trabalho.


Setúbal, 26 de agosto de 2021


RL

Foto: Um por do sol de domingo na Aldeia do Penedo


Posts recentes

Ver tudo

Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internalizá-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

 

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

 

Renato Leal