• Renato Leal

Refazer a Vida a Dois


Estava cá a pensar com os meus 65 botões e me veio em mente uma série de conversas que tenho ouvido e participado sobre reconstrução – eu chamaria de reinvenção - da vida a dois. Quando com filhos praticamente criados, e uma série de experiências vividas, temos maturidade para construir juntos um projeto para durar e se eternizar.


Quando jovens – muito pouco maduros, sem saber mesmo o que queríamos da vida, minha geração e as anteriores foi obrigada a jurar votos de amor eterno até que a morte viesse a ocorrer. A sociedade mudou, e aqueles casamento que “davam certo no passado e chegavam às bodas de ouro”, começaram a ruir. E por que?


Falam muito que o casamento tornou-se frágil com o aparecimento do divórcio, com o trabalho independente da mulher e uma relativização da moral da sociedade. Não penso assim. Estes eventos vieram a permitir a interrupção do casamento, que antes se seguravam pelo preconceito e exclusão social da mulher separada, pela impossibilidade de independência financeira, pois normalmente ela não tinha uma fonte de renda do seu trabalho e, last but not least, por não querer perder o seu status social e financeiro. Ia quase esquecendo o uso da violência. Isto no ponto de vista feminino. No masculino, não querer dividir o patrimônio que o homem construiu, sendo completamente esquecido o papel da mulher naquele tempo, cuidando da casa e da educação dos filhos. Tarefa para poucos.


Não quero dizer com isso que não haja, às vezes, algum facilitismo, ou mesmo irresponsabilidade nas separações precipitadas. Falta de diálogo, paciência. Mas isso não explica as percentagens elevadíssimas de casamentos que não duram nem 3 anos. Foram estas mudanças na sociedade que criaram a possibilidade de não se eternizar a infelicidade.


Mas voltando ao primeiro parágrafo, …estava eu cá a pensar com meus 65 botões, porque não tentar agora. Para valer, senhores de si, uma nova união. Toco neste tema, pois vejo homens e mulheres dizerem que desistiram desta nova “aventura”. É uma opinião firmada, ou apenas medo de falhar novamente? Fica aqui esta questão em aberto.


De minha parte – livre pensar - acho que nesta idade as pessoas, agora sim, estão aptas para viver o amor da vida delas: com mais presença física, com mais liberdade aos dois, com mais maturidade para estabelecer o alinhamento dos projetos de vida individual e seu respeito, e a criação do projeto comum. Mais do que tudo, com mais possibilidade de se focar na relação e não deixá-la órfã, de ser algo, enfim, prioritário nas suas vidas.

Aí sim, será eterno, sem altar.


Fica a pergunta: E por que não?


RL


Aldeia do Penedo – Sintra

Foto: RL

Caminhos da nossa Aldeia

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Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internalizá-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

 

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

 

Renato Leal