• Renato Leal

Crônica de Final de Ano da Graça de 2017



Adoro este “vale” que se abre entre o dia de Natal e o último dia do ano.


Costumo visitá-lo todo ano, desde os idos tempos da minha formatura. Um rito que se repete com graça, amor, senso crítico e uma vontade uterina de avançar na vida. De corrigir jeito de ser, de construir novos sonhos, amizades, de conhecer novos locais e reavivar aqueles planos arquivados.


Costumo chamar este vale, do Vale dos Reencontros. Lá “revejo” velhos amigos, cedo e recebo abraços, beijos e votos sinceros de um ano melhor, quando este passeio terminar. Lá também, nos reencontramos com os amigos distantes – trocando mensagens, e-mails, ligações telefônicas, mensagens pelas redes sociais – o que nos faz reavivar a memória do que foi bom nas nossas vidas.


Normalmente desacelero. Entro num fértil marasmo, meio que ocioso, que me permite clareza ao olhar, pensar, sentir a vida enquanto estou a passear. Depois reacelero, entrando no modo fazer, para chegar de volta ao topo da colina e, festivamente, repetir votos, sonhos, compromissos. Neste mood, vejo melhor, faço conexões e alinhamentos. E cito Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”.


Nunca contabilizei destes votos aqueles que foram, parcial ou totalmente, realizados. E isto pouco interessa. O que conta é o exercício de reflexão e dos sentidos, feitos neste passeio do corpo e da mente de quem fez. E posso dizer, que daqueles compromissos, os mais prioritários, definidos nas metas de final de ano, estes foram quase sempre atingidos. Aliás, volto com Galeano que pergunta sabiamente: “Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Pois é, às vezes não importa chegar, mas sim se aproximar, reduzir distâncias do agora ao futuro.


Não vou enumerá-los, mas sei que são muitos. Eles saltitam neste interregno como para dizer que é possível construir novos sonhos e realizá-los logo à frente, no ano que se segue. E deixar-se apagar o que não presta, que é ruído, que é coisa má.

Em anos mais conturbados, o passeio pode se encher de sacolejos. Estes, ou nos derrubam e nos jogam na apatia e no conformismo, ou expurgam estes lixos da nossa vida e nos põem de volta no topo da montanha. Há anos mais calmos, mas não esqueça de agradecer sempre o que o ano que se vai ensinou a você.


Sim, este passeio no vale só tem valência se nos colocar no topo da montanha, renovados – retrofitados – fortalecidos para os 365 dias que virão pela frente. O contrário, é entrar na zona cinzenta da apatia e da espera passiva, só com esperanças, por dias melhores. Ou com aquele arranque inicial que logo se esvai.


Este ano o passeio está sendo diferente. Um passeio acompanhado. Momentos de construção de futuros. Resgate de passados longínquos.


Resolveram, não sei onde, que havia chegado a hora do reencontro.


RL

Aldeia do Penedo, Sintra

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Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internalizá-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

 

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

 

Renato Leal