• Renato Leal

A poesia e os efeitos na nossa vida



Segundo Rubem Alves “as gaivotas ¬ ele fala em urubus, mas prefiro gaivotas, por serem mais meigas e belas ¬ não batem asas em meio a ventania. Apenas deixam-se levar, flutuam”. Este jeito de ser, ele chama de sabedoria. “A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba” .


O que nos trás mais a poesia, na busca da quietude interior? Ela nos traz para o momento presente; para a nossa intimidade interior; para o detalhe; e aguça e atiça a nossa capacidade de sentir; nos empurra para a delicadeza que deve circunscrever as nossas relações. Isto foi o que me saltou a quente, da leitura deste parágrafo de Rubem Alves. E explico a seguir.


A leitura de um texto poético nos força a uma concentração. Cada palavra, ponto e vírgula, encerram interpretações. Fecham significados. O canto da poesia tem que ser sentido, pois altera o significado desta. Esta absorção nos põe no centro d’agente, como servisse de guia para nos levar a um pré-estado de meditação. E isto nos traz muita paz. E com esta vem a tal sabedoria das gaivotas.


Novamente Rubem Alves afirma: “ ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa própria verdade, os caminhos em que mora o essencial”.


Nelas, a intimidade interior se desnuda. Perdemos o receio de mostrá-la, pois ela mistura-se na linguagem poética e clarifica-se para nós. Para entendê-la, e tirar partido dela, temos que olhar o momento ao detalhe. Dizia um amigo meu de faculdade ¬ o Hatanaka – que “Deus está no detalhe”. Como penso que Deus somos nós, só percebemos de nós e de tudo mais, com este mergulho intenso no detalhe.


Ler poesia, portanto, é o exercício da nossa capacidade de sentir: poesia tem música, tem cheiro, tem gosto; poesia se canta, se escuta; tudo muito presente e tudo que nos traz quietude interior. Poesia tem alma e ajuda a conhecer as nossas entranhas. As poesias fazem perguntas... E trazem respostas. Elas significam delicadeza nas nossas relações: conosco, com as pessoas e com as coisas; com o tempo, com o espaço e com o vazio. Ela é também silêncio. E nos ensina a voar como as “gaivotas” que o Rubem Alvez vê planando nos céus. Sábias gaivotas. Sábia gente.


RL


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Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internalizá-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

 

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

 

Renato Leal